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O pior do pior do mundo: a justiça brasileira!

vergonhaSempre achei que o nosso maior problema, como nação, fosse a justiça, ou falta dela. Se a justiça não funciona, ou tarda tanto até que falha, de que vale a lei? Se a lei não tem importância, menos ainda o congresso. Se o congresso é inócuo, de fato não há democracia.

Ingênuo que sou, acreditava que nosso sistema judiciário é assim pela conjunção perversa de dois fatores: a cultura latina, formal, ritual, onde só vale o que está escrito e falta de recursos terceiro-mundista.

Tinha inveja da rapidez e objetividade da justiça norte- americana, mais preocupada com princípios e intenções do que com a letra morta da lei. Tinha inveja da capacidade de chegar a acordos financeiros: um mal sofrido geralmente é irreparável, mas dinheiro sempre tem utilidade e o bolso é uma das partes mais sensíveis do corpo humano. Tinha inveja de não ser anglo-saxão.

Hoje vejo que ainda que, como a sífilis, o formalismo e a burocracia sejam partes inseparáveis de nossa herança portuguesa, não são elas que impedem que haja justiça no Brasil.

O problema é a falta de vergonha na cara de muitos funcionários dos judiciário que aparentemente se julgam acima da resto de nós. Começando pelos salários mais elevados que a absoluta maioria da população e  chegando ao absurdo de acharem que não devem ser fiscalizados, nem por eles mesmos, muito menos pela sociedade que banca as mordomias. Sem falar nas jornadas mais curtas, férias mais longas. Os recessos: como uma instituição que leva décadas para julgar um  processo, por falta de recursos humanos se dá ao luxo de parar totalmente todo janeiro?

As notícias recentes só reforçam a triste constatação que, de tanto poder, nossa justiça ficou míope e sacana: só olha para seus próprios interesses, só é ágil quando trata de defender seus próprios privilégios e salve-se quem puder.

Liberdade, Liberdade: abre as asas sobre nós!

viagem grátis

Hoje de manhã a Ana Maria Braga, citando não sei quem, disse que morar na terra é muito caro, mas inclui uma viagem gratuita todo ano ao redor do sol. Não tem nada a ver, mas fico pensando no preço que pagamos por viver em sociedade e quanto deste preço é justo ou necessário.  Deixando questões filosóficas para um outro artigo e concentrando-se somente no lado social e econômico, é óbvio que viver em bando nos proporciona enorme ganho de bem-estar. A divisão do trabalho, além dos ganhos de produtividade nos dá o privilégio de poder fazer o que gostamos a maior parte do tempo, ao invés de nos dedicarmos diuturnamente, e muitas vezes sem sucesso,  à obtenção de alimentos.

Some-se a isso à segurança contra os animais selvagens e salteadores, a medicina, a água encanada,  a tevê a cabo, os butecos, teatros, restaurantes, prostíbulos e outras amenidades há tanto tempo tão a nosso alcance, que fica quase inconcebível a vida em isolamento.

Por isso, como dizia o Hobbes, alienamos parte da nossa liberdade ao Estado, criando o Leviatã que nos oprime. Até aí tudo bem, sem algumas regras e restrições nossas cidades seriam ainda mais bárbaras, mas, talvez por sado-masoquismo, pegamos gosto pela coisa e o monstro já nem anda de tão gordo que ficou.

Das inúmeras leis, normas, regulamentos, tabus e costumes que mantemos, quantos são realmente necessários para manter a civilidade e o bem estar na sociedade? Por que é proibido andar de moto sem capacete, ou de carro sem cinto de segurança? Por que é proibido consumir drogas? São atos que, a princípio, só prejudicam o próprio agente. Qual a razão do monopólio da Petrobrás, do novo padrão de tomadas elétricas, do tabelamentos de preços, dos pontos de táxis exclusivos, das concessões de rádio e televisão, do limite de velocidade?

Digo que é sado-masoquismo porque não consigo ver outra explicação que não o recalque para esta obsessão por criar regras, como se elas fossem solução. Talvez venha do prazer tão humano de ferrar as minorias a qual não pertencemos, esquecendo que, por algum critério, sempre seremos minoria. Se não tenho caminhão sou a favor da proibição deles na cidade. Se não ando de moto, quero os motoqueiros fora da marginal. Se não tenho dinheiro, apoio o teto constitucional para os juros. Se minhas pernas são feias, que proíbam a minissaia. Se casei com a mulher errada, vamos banir o beijo em locais públicos. Abaixo o top-less, fumar nas tabacarias, a corrida de cães, a briga de galos, os cassinos, o jogo do bicho.

Ou talvez não seja isso, seja a crença no mecanicismo, que escrevendo procedimentos poderemos harmonizar as relações humanas. Como se não fossemos infinitamente criativos para burlar as leis ou cínicos para torcê-las em benefício próprio nos tribunais.

Ou pior ainda, pode ser que não queiramos a responsabilidade que a liberdade traz consigo. Se só tivéssemos as regras essenciais, as óbvias de respeito ao próximo e ao ambiente, de ética e integridade, teríamos a obrigação de pesar nossos atos e arcar com as consequências deles e os juízes deveriam julgar, não em função da letra morta da lei, mas de princípios básicos, simples demais para  serem burlados.

E a minha liberdade, onde é que está?

[leia ouvindo: Tá na Hora (Raulzito)]

proibido lutar com elefanteHá muitos anos atrás, quando tinha a sua idade, e viajava por aí, achava engraçado a quantidade de proibições que os cidadãos estavam sujeitos. A placa de150 libras de multa pra quem andasse pelos trilhos em Londres me impressionou duplamente: por acreditarem que alguém seria punido a ponto de colocar o valor na placa e pela placa já estar gasta e o valor ainda não ter se tornado ridículo. Em Cingapura é mais engraçado, até comprei  uma camiseta que tira sarro de tudo que é proibido lá. Pensando bem, talvez o excesso de proibições seja a única coisa pitoresca da ilha.

Nunca compartilhei da estranha admiração dos meu compatriotas pela cultura e educação do velho mundo. Andava distraído, mas não o suficiente pra deixar de perceber que a ordem em geral vinha da repressão, do uso da força para garantir o cumprimento da lei (eles têm até uma palavra pra isso: enforcement). Sentia-me afortunado por viver em Pindorama, onde tudo pode, tudo é fantasia.

Só que olhando melhor não é difícil notar que o que nunca ficamos devendo aos gringos foi lei e proibição. Só que ninguém levava a sério. Talvez porque faltasse uma palavra em português para enforcment, ou porque haviam preocupações mais urgentes. Ninguém dava bola quando inventavam uma nova lei. Era melhor esperar pra ver se a lei pegava. Ainda mais com nossos mandatários pródigos no cultivo de abóboras como o tabelamento dos juros na constituição.

A dissonância entre legislação e realidade por tanto tempo tornou o estilo de governar por decreto cada vez mais popular, até que produziu seu maior expoente até agora: nosso prefeito Gilberto Kassab. Não porque ele seja particularmente criativo, afinal nem dá pra competir com o Prefeito de Bocaiúva do Sul que proibiu a camisinha ou com o de Rio Claro que proibiu a melancia, mas porque os recursos tecnológicos e financeiros atuais permitem uma fiscalização relativamente efetiva, tornado a brincadeira absolutamente sem graça.

A solução é proibir!

Muito trânsito? Proíbe de usar o carro uma vez por semana.

Muito acidente com moto em alguma vias? Proíbe moto de passar por ali.

Proíbe caminhão na Bandeirantes, proíbe de fumar em casa noturna, proíbe celular no banco, proíbe servir couvert em restaurante, proíbe prostíbulo, proíbe mastro de bandeira em estádio de futebol, proíbe outdoor.

Não vai demorar pra alguém pensar na lei que acabará de vez com os problemas de trânsito e praticamente erradicará a violência urbana: É proibido sair de casa!

Talvez por preguiça de pensar, ou porque a maioria ainda não se veja afetada pelas proibições, pouco a pouco nossa liberdade vai sendo tirada. Não existe outro jeito? É o preço de viver em sociedade?

O que não existe é um caminho suave. Subjacente a este, existe outro debate, o do liberalismo versus outra coisa. Por que não é fácil definir o oposto de liberalismo? Isso já é tema pra um próximo artigo…

10 coisas que não prestam

1) Restaurante + pizzaria + churrascaria + massas, tudo num só lugar.

2) Celular com TV+Rádio+ Internet+E-mail+GPS+cortador de pelo do Nariz;

3) Filme escrito e dirigido pelo mesmo cara.

4) Monólogo teatral.

5) Impressora multi-funcional com  desenhinho ao invés de instrução escrita;

6) Vinho suave.

7) Programa humorístico semanal.

8) Listas de 10 coisas.

Música pra Aprender Inglês

Um jeito meio torto de aprender outra língua é ouvindo música. Não é lá muito organizado, não tem nenhuma garantia que você vai cobrir uma parte importante do vocabulário, nem que vai entender a gramática, mas é divertido. Boa parte do meu inglês torto veio de ouvir Pink Floyd. Na época gravava as fitas K7 a partir de discos emprestados e xerocava os encartes que normalmente tinham as letras. Lembro até hoje que o encarte do “Dark Side of the Moon” era escrito em branco sobre fundo preto, segundo a teoria da conspiração vigente na época, justamente pra você não tirar cópia. Tirei e até que dava pra ler. Era um dos que mais gostava.

Hoje em dia é muito mais fácil. Acha-se música e letra de quase tudo que é cantado em inglês na internet. Você não sabe como? os seus problemas acabaram, aqui vai um guia prático para baixar música e letra da internet. Note que não estou dizendo pra você fazer isso, muito pelo contrário, ao fazer você certamente estará violando várias leis e a responsabilidade será toda sua, nem vem que não tem!

Jeito fácil, mas limitado:

Se você pretende aprender inglês sentado na frente do computador, dedicando-se integralmente a isso, evitando outra atividade simultânea como  dirigir, caminhar, lutar boxe, explodir caixa eletrônico etc, esse método pode funcionar pra você:

Vá ao Lyrics.com e procure uma música que você gosta. Muito provavelmente você encontrará a letra e, com um pouco de sorte, ao lado da letra verá uma janelinha mostrando um vídeo do youtube com o cara cantando. Mais fácil impossível. Só que você tem que estar na frente do computador, conectado, etc. Se você estiver disposto a se sujeitar a estas limitações, poderia, ao invés de música, utilizar um programa educacional que, embora menos divertido, normalmente não tem os inconvenientes mencionados no primeiro parágrafo. Podemos falar sobre isso, mas aí já é outro artigo.

Jeito mais versátil, porém mais complicado

Logicamente você pode baixar as músicas e as letras, gravar as primeiras no seu tocador portátil e imprimir as últimas em folhas de cartolina, para em seguida sair de lambreta pela contramão escutando a música e lendo a letra, mas lembre-se daquele papo de infringir várias leis e de que o problema é só seu.

Pra fazer isso, primeiro você vai precisar de um cliente bit-torrent. Se você é um dos zumbis que teve o cérebro comido pelo Bill Gates, provavelmente usa Windows e não tem isso instalado. Vá ao:

http://www.utorrent.com/intl/pt/ baixe e instale.

Uma vez feito isso, você já pode baixar as músicas. Prefira as em formato MP3 (de longe as mais abundantes) já que os outros formatos (OGG, FLAC, etc.) podem ser melhores mas não suportados por todos os tocadores. Dois sites com conteúdo legal, só que ilegal:

A baía dos piratas

Caçada de ISOs

Neles você vai achar quase tudo que seja minimamente comercial.

Quanto as letras, vá no mesmo Lyrics.com mencionado anteriormente, selecione, copie e cole no seu editor de texto favorito.

Instruções finais

Se não der certo, comente o post.

Se for preso, não esqueça de levar um celular 3G e fones de ouvido. A cadeia deve ser um bom lugar pra estudar inglês.

É você que ama o passado e que não vê, que o novo sempre vem!

Você perdeu o show do Gogol Bordello no Brasil?  Quando você imagina que poderá ver novamente ao vivo a maior banda de punk-cigano da década? Nunca, como diria Heráclito ou outro grego cachaceiro qualquer, pois se houver uma próxima oportunidade, nem o Gogol será o mesmo Gogol, nem você será o mesmo homem (mulher ou simpatizante).  Cumprindo nossa Quixotesca missão de deter o tempo, trazemos a você um flagrante do grupo aqui em Pindorama.

Não é suficiente? Você não sabe quem é Gogol Bordello?

Está cansado de ser alvo de olhares de desprezo e de rizinhos mal disfarçados toda vez que deixa notar sua ignorância?

Seus problemas acabaram, vai aqui um curso rápido:

1) Saiba que a banda antes chamava Hütz & the Béla Bartóks.

2) Gogol = Nikolai Gogol (escritor ucraniano mega hiper blaster famoso)

3) Bordello = Bordel em Italiano (logo, o Bordel de Gogol).

4) Veja o Vídeo:

5) Decore a letra:

First time I had read the Bible
It had stroke me as unwitty
I think it may started rumor
That the Lord ain’t got no humor

Put me inside SSC
Let’s test superstring theory
Oh yoi yoi accelerate the protons
stir it twice and then just add me, ’cause

I don’t read the Bible
I don’t trust disciple
Even if they’re made of marble
Or Canal Street bling

From the maelstrom of the knowledge
Into the labyrinth of doubt
Frozed underground ocean
melting – nuking on my mind

Yes give me Everything Theory
Without Nazi uniformity
My brothers are protons
My sisters are neurons
Stir it twice, it’s instant family!

I don’t read the Bible
I don’t trust disciple
Even if they’re made of marble
Or Canal Street bling

My brothers are protons
My sisters are neurons
Stir it twice dlja prekrastnih dam…

Do you have sex maniacs
Or schizophrenics
Or astrophysicists in your family
Was my grandma anti anti
Was my grandpa bounty bounty
Hek-o-hek-o-hej-o
They ask me in embassy!

‘Cause I don’t read the Bible
I don’t trust disciple
Even if they’re made of marble
Or Canal Street bling

And my grandma she was anti!
And my grandpa he was bounty!
And stir it twice
And then just add me!
Partypartypartypartypartyparty
now afterparty…

Pronto! você vai arrasar nas rodinhas mais descoladas!

Triste é tocar na percussão…

…Ninguém te vê, te ouve não.

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 <- Clique para ver o vídeo

Letra:

Scotty doesn’t know that Fiona and me
Do it in my van every Sunday.
She tells him she’s in church but she doesn’t go
Still she’s on her knees and Scotty doesn’t know!

 

Oh Scotty doesn’t know!
So Don’t Tell Scotty!
Scotty doesn’t know!
Scotty doesn’t know!
So Don’t Tell Scotty!

Fiona says she’s out shopping,
But she’s under me and I’m not stopping…

Because Scotty doesn’t know!
Scotty doesn’t know! (X3)
So don’t tell Scotty!
Scotty doesn’t know!

Don’t tell Scotty!

I can’t believe he’s so trusting,
While I’m right behind you thrusting.
Fiona’s got him on the phone,
And she’s trying not to moan.
It’s a three-way call and he knows nothing!

Scotty doesn’t know!(X3)
So don’t tell Scotty!
Scotty doesn’t know!(X3)

We’ll put on a show!
Everyone will go!
Scotty doesn’t know!(x3)

The parkin lot
Why not? It’s so cool when you’re on top!
His front lawn in the snow
Life is so hard because Scotty doesn’t know!

We did it on his birthday…

Scotty doesn’t know!(X4)

Scotty doesn’t know!
Scotty won’t know!
Scotty doesn’t know!
Scotty’s gotta know!
Gotta tell Scotty!
Gotta tell him myself!
Scotty doesn’t know! (X10)

[Chant] Scotty doesn’t know! (x7)
[Chant] Scotty’s gotta go!

Diálogo: poder além da vida

Dan: Sócrates estou um pouco apressado, você pode não demorar?
Sócrates: Tudo bem.
E joga Dan no lago. Dan sai furioso:
Dan: Ei! Estou falando com você! Qual o seu problema hein?
Sócrates: Você estava com pressa.
Dan: Por isso me empurro na ponte?
Sócrates: Eu esvaziei sua mente.
Dan: Você o que?
Sócrates: Eu a esvaziei.
Dan: Não esvaziou não! Você me jogou no rio.
Sócrates: E no que você pensou enquanto caia?
Dan: Não sei!
Sócrates: Estava pensando na escola?
Dan: Não!
Sócrates: Nas compras?
Dan: Não!
Sócrates: Onde estava indo?
Dan: Não…
Sócrates: Estava 100% dedicado à experiência que estava tendo. Tem até uma palavra para isso: Ahhhhhh!!!!
Dan: Você é maluco sabia?
Sócrates: É preciso praticar a vida toda.

O que há de errado com a sociedade?

Bertrand Russell escreveu um ensaio interessante no começo do século passado chamado “Elogio ao Ócio”. Não confundir com o “Ócio criativo” do Domenico de Masi, que veio bem depois.

É o primeiro ensaio do livro do mesmo nome, que trata, entre outras coisas, das várias utopias do Bertrand. Tinha um que era sobre arquitetura, dos outros não lembro, mas o mote do elogio é o seguinte:

Com as “Revoluções Industriais“, a produtividade do trabalho aumentou muito. Não muito tempo antes, um sujeito típico se acabava de trabalhar e o que produzia muitas vezes não era suficiente para alimentar sua família. Com a organização do trabalho e os avanços tecnológicos, poucas horas de um trabalhador comum passaram a criar valor suficiente para suprir sua família pelo mês inteiro.

Com essa idéia na cabeça, Bertrand que era um otimista imaginou que, lá pelos idos de 1950, as pessoas trabalhariam umas 2 horas por dia e com isso supririam suas necessidades básicas. O resto do tempo seria dedicado então às belas artes, à ciência, à filosofia, música, a ajudar o próximo.

O que foi que saiu errado???

Existe muita coisa errada com nossa sociedade, em outros artigos vamos falar da opressão e se as coisas estão piorando ou não, mas aqui vamos tratar só da questão econômica.

A primeira coisa a reconhecer é que é irracional pensar que trabalhamos pra ganhar dinheiro. Se fosse assim, os que têm mais, trabalhariam menos, e vice versa. O que há, de fato, é um buraco dentro da gente, que tentamos tapar com alguma coisa: com comida, sexo, trabalho, bens, etc. O desejo de realizar, de construir, é um desses apetites, que quando satisfeito traz prazer.

Antes, quando o trabalho tinha baixo rendimento, predominava a fome e outras necessidades básicas. Não víamos que, apesar de tudo, trabalhar trazia alguma satisfação. Não é à toa que tanta gente compra chácara pra brincar de agricultor, faz cerâmica, desmonta o próprio carro ou pratica marcenaria como hobby.

A divisão do trabalho, que pariu a produtividade, trouxe também ao mundo um filho bastardo: a alienação do produto do trabalho, não só em termos de valor, como percebeu o judeu barbudo, mas, principalmente em termos de realização pessoal. Atualmente é perfeitamente possível um sujeito trabalhar a vida inteira sem produzir nada de concreto. Na visão do grande filósofo contemporâneo Scott Adams, o executivo é um animal que vive em cubículos e transforma donuts em slides de powerpoint. Em geral, quanto menos relacionado ao que é produzido, maior a remuneração. Os que tem a sorte de trabalhar no projeto ou criação do produto, freqüentemente tem uma influência muito limitada. O engenheiro mecânico estuda a vida inteira e no final acaba definindo a cola que vai na borracha do porta-malas, ou a forma ótima da cabeça do pistão. Assim, o trabalho, sem que percebéssemos, deixou de dar prazer.

Por outro lado, o ganho de produtividade teve um destino diferente do imaginado por Bertrand. Não foi transferido para o trabalhador como ele anteviu, nem para o capitalista, como dizia o Karl. Foi para o consumidor, através de enorme queda nos preços dos produtos. Este fato pode até ser um pouco mascarado, pela dificuldade de comparar os produtos atuais com os de antigamente, mas sua veracidade é inegável. É só imaginar quantos trabalhadores poderiam passar férias na Europa ou comprar um carro nos anos 30.

As coisas baixarem de preço, por si só, não é ruim. O problema é competir nesse ambiente. A facilidade de comunicação e transporte, a tal globalização, acaba acelerando o processo de quedas nos preços. Aí para sobreviver a empresa tem que ser eficiente, crescer para ter escala, diminuir custos. Nada mais natural que a pressão competitiva externa seja transferida para os funcionários.

É justamente aí que as coisas ficam mais interessantes: como é que se distribui a pressão externa por eficiência em uma organização onde ninguém tem uma influência muito clara no produto final? Pense assim: em uma corporação de ofício da idade média, ficava evidente quando um sapateiro trabalhava muito devagar ou não fazia bons sapatos e prejudicava o grupo, mas qual comedor de donuts é mais responsável pelo prejuízo da General Motors?

Como não dá pra ter certeza, nos guiamos pelas aparências. Quem parece produzir mais? Quem tem o melhor marketing pessoal? Quem fica até mais tarde no escritório? Assim, além de não ter influência clara no produto da empresa, o funcionário passou a ser valorizado justamente pelas atividades que lhe afastam mais ainda do mundo real, em direção mundo corporativo.

Acabou saindo ao contrário do que previa o Bertrand: quem trabalha, trabalha muitas horas por dia. Porque tem que parecer que trabalha muito, passa a maior parte do tempo fazendo política, propaganda de si mesmo ou contra os competidores internos. E muita gente fica sem trabalhar, ou trabalha menos do que gostaria, ou fazendo algo que não queria.

É até irônico: quem trabalha, não tira mais satisfação do trabalho, porque está alienado do fruto de seu trabalho e quase não tem tempo de buscar satisfação em outra coisa, porque trabalha demais. Qual o escape? Onde dá pra obter prazer imediato, sem complicação, sem aprendizado, sem efeito colateral?

Se você disse no consumo, acertou! Como as coisas estão cada dia mais baratas, e precisam de escala de produção para continuar dando lucro e estamos infelizes, a publicidade nos convence que a felicidade é um crediário. O que põe mais lenha na fogueira: quem trabalha fica ainda mais refém do emprego e de trabalhar mais, porque não tem dinheiro para consumir tanto quanto gostaria, afinal, a fome que ele sente é de outra coisa.

Continuo achando o Bertrand genial, mas, ao invés de um celeiro de artistas e filósofos, nossa sociedade tornou-se  uma fábrica infelizes e neuróticos.

Delfim Moreira: A fronteira final

mapa

Essa foi a primeira viagem que deu certo usando o método .

Saímos sábado, lá pelas onze da manhã. Depois do abastecimento e das verificações de rotina, rumamos velozmente pela marginal pinheiros, ainda meio estragados pela falta de sono e pelo excesso de cerveja. Vencemos sem maiores problemas o labirinto de entradas, saídas, viadutos e remendos que conhecemos como Marginal Tietê.

Nossa retidão e compromisso em não nos desviar de nossos objetivos nos levou naturalmente à Aírton Sena e desta à Carvalho Pinto. Pagamos os pedágios que nos cabiam e paramos em um restaurante em Tremembé para defecar e comer.

Ao voltar ao carro ficou claro que não havia mais tempo para brincadeira: apontei o GPS para o Borboletário de Campos do Jordão, onde começaria a aventura.

Subimos velozmente a serra de campos, passamos quase despercebidos pelos bebedores de chope nas calçadas do Capivari, e zigue-zagueamos morro acima pelo caminho do Horto. Paramos rapidamente em frente ao acesso ao Borboletário para conferir a distância. Imaginamos chegar a Delfim lá pelas 6 da tarde, o que era bom.

A primeira surpresa foi logo em seguida: o portão do horto! Pelas fotos do satélite havia imaginado que não entreraíamos no dito cujo, mas não teve jeito. Pagamos a entrada e o estacionamento, embora não fóssemos utilzá-lo.

Como um de nós era mulher, quis perguntar ao guarda se por ali tinha caminho pra Delfim Moreira. Claro que não deixei, sabiamente argumentando que o guarda florestal não sabia nada.

Dentro do parque fomos seguindo a estrada única: se tinha outra não vi. Engraçado que do espaço tinha visto várias

Sáida do Parque

bifurcações e ótimas oportunidades de errar o caminho, mas fomos milagrosamente passando um a um pelos waypoints que tinha criado, até sair do parque e adentrar às Minas Gerais.

A estrada é bem tranqüila, dentro e fora do parque. De terra, mas bem cuidada. Não há muita chance de errar, acabamos chegando à BR 459, não no ponto originalmente planejado, mas chegamos. Este é o final da trilha amarela no mapa. Depois foi pegar um pouco de asfalto, que é o trecho azul no mapa. Engraçado que o registro da trilha “sai” bastante da estrada no mapa. A diferença é muito grande pra ser imprecisão do GPS, imagino que o mapa do Google esteja errado.

Para chegar à Delfim Moreira pegamos um atalho de terra, o trecho roxo no

Delfim Moreira

mapa. Bem tranqüilo, passa por um pesqueiro e chega à rodovia que dá acesso à cidade por uma fazenda abandonada.  Do asfalto é possível ver a cidade do alto. Disseram que parecia um presépio, não achei, mas cada um tem o natal que merece.

Entrando na cidade passamos pela ex-fábrica da Cica, que agora é a prefeitura. A região já foi grande produtora de marmelo. Alguém ainda come marmelada? Sei que segundo o dono do boteco, não é mais negócio plantar marmelo. Li, não sei onde, que além da Cica, tinham outras fábricas de marmelada na região, mas todas fecharam.

Delfim Moreira é uma cidadezinha típica. Não tem nada pra fazer, segundo a menina da

Forró na Praça

pousada e o já mencionado dono do boteco. Só missa. Tem missa todo dia, a de sábado à noite demorou quase duas horas. Achamos divertido, teve até forró na praça. Como já tinha tomado duas caipirinhas e meia garrafa de vinho,

Uma das 7 cachoeiras da Boa Esperança

esparramei meus dotes de bailarino pelas ruas calçadas de paralelepípedo da pequena urbe mineira.

Boa Esperança

Depois de dormir o sono dos justos, fomos conhecer as cachoeiras da região. A grande pedida é a fazenda Boa Esperança, que se acessa através da nossa velha conhecida, a BR 459, embora não seja tão perto do asfalto, o caminho é bem sinalizado, com placas engraçadinhas do tipo: é logo ali, tá chegando, falta pouco.

Na fazenda conhecemos as sete cachoeiras, guiados pelo Bandit (pra quem não se lembra o cachorro do Jonny Quest) Depois comemos truta, que são criadas na própria fazenda. São pequenas, mas saborosas.

Daí foi voltar pra casa, passando por Piquete, pegando trânsito na Dutra, etc, etc etc.