setembro 2010
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Revoluções Industriais

A primeira revolução na maneira de produzir as coisas foi a divisão do trabalho: ao invés de cada trabalhador fabricar o sapato, um cortava o couro, outro costurava, outro pintava, etc. Embora mais vistosa, a transição para as linhas de montagem com suas máquinas e esteiras mecânicas foi um salto conceitual menor.

 

Existe, porém, outra divisão do trabalho: entre o trabalho material e o abstrato. Mesmo quando realizado por um único artesão, a produção de qualquer objeto sempre prescindiu destes dois tipos de trabalho. Para transformar tecido e linha num vestido, além de cortar e costurar é preciso o trabalho abstrato de imaginar, conceber ou desenhar a peça.

 

revoluções Industriais

 

Embora possível desde sempre, esta segunda divisão do trabalho passou a fazer mais sentido econômico com o advento do computador e seus derivados. A máquina cuida da parte material do trabalho, desde que um humano codifique a parte abstrata de uma forma que ela entenda. Assim, a máquina tornava-se genérica, deixando a especialidade por conta do programa que nela roda. Poucos tipos de máquina que servem a muitas funções facilitam a produção em massa, popularizando e barateando os computadores. Tornou-se comum a parte sutil do trabalho, o software, valer mais que a parte grosseira, o hardware. O desenho custar mais que vários vestidos, o programa de gerenciamento empresarial valer mais que todos os computadores do escritório, o projeto custar mais que muitos carros.

 

Nos produtos onde a parte abstrata é relativamente mais importante, como livros e discos, paradoxalmente, a parte material ainda era mais cara. O grande capital necessário para editar e distribuir as mídias representava barreira à concorrência, deixando as gravadoras e editoras com a “parte do leão”.

Apesar da fama de grande revolucionária, só o que a internet fez foi tirar proveito da segunda divisão do trabalho, separando definitivamente a parte abstrata da mídia que a suporta. A primeira conseqüência foi  o desmoronamento, atualmente em curso, dos impérios fonográficos e editoriais, em função do enquadramento destes produtos ao “novo padrão” de divisão de custos entre a parte abstrata e a material.

Quase um efeito colateral, a parte abstrata sem seu substrato, viajando livremente, facilitou o trabalho a várias mãos. A obra conjunta de criadores separados por milhares de quilômetros, que já era comum na pesquisa científica, tomou de assalto o mundo do desenvolvimento de software.  Foram e continuam sendo desenvolvidos programas livres para tudo. Do sistema operacional à ferramenta de projeto assistido por computador, passando pelo processador de texto e pela ferramenta de gerenciamento empresarial (ERP). Tudo disponível, de graça e muitas vezes com qualidade e desempenho superiores às contrapartes “não colaborativas”.

Guias de entretenimento, guias de viagem, de restaurantes, de bares, passaram a ser preenchidos pelos usuários. Daí para a enciclopédia colaborativa foi um pulo. Fabricantes de qualquer produto relativamente complexo criaram fóruns de usuários e listas de perguntas freqüentes. Fabricantes de celulares, de equipamentos de automação industrial e até de brinquedos criaram sites para troca de programas entre clientes.

Que sacada! O mundo se empolga com a idéia, mas existem problemas – não perca o próximo artigo: Virtudes e vícios do trabalho colaborativo.

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