Nenhum homem é uma ostra
Se pularmos agora para as virtudes e vícios do trabalho colaborativo vai ficar faltando um pedaço. Falamos das tecnologias que viabilizaram o rápido crescimento desta forma de produção, das mudanças de valor relativo entre as partes material e abstrata do trabalho, mas o quadro não fecha: só porque se tornou possível, determinado evento não tem necessariamente de ocorrer.
Para o observador indiferente à tecnologia, como creio a maioria de nós, o que mais chama a atenção no trabalho colaborativo? O que ele tem de revolucionário? É que é tudo de graça! Ou quase, pelo menos no que se refere a produto.
O sujeito que paga por mil e tantas pratas num computador sabe que, para que ele funcione pelo menos como máquina de escrever, terá que gastar mais ou menos a mesma coisa num Microsoft Office. Ou então instalar o Open-Office de graça. E ele vem completinho, faz desenho, apresentação, põe cobrinha em baixo da palavra escrita errado. E em qualquer língua, do português do Brasil ao klingon.
É isso que salta aos olhos: é tudo free! Do programa para trabalhar ao joguinho, do livro técnico à música nova. E muita gente boa nem perde tempo com as digressões do artigo anterior e vai direto à veia: como pode ser de graça? Os criadores trabalham de graça?
Quem aprecia a beleza das construções intelectuais deve curtir a demonstração de que toda mais valia provém do trabalho, feita pelo barbudo Karl. O resto do valor da coisa é mera reprodução material. Já que os produtos que nos interessam sublimaram sua parte material, eles são pura mais valia, puro trabalho objetivado – e não valem nada!
Na raiz deste aparente paradoxo reside a gênese das virtudes e vícios do trabalho colaborativo. Por que alguém faria alguma coisa de graça?
Por necessidade de expressão: imagine que, como as ostras, seu cocô tivesse um bom valor comercial. Certamente você faria cocô com a freqüência possível e, vendido nos melhores shoppings, o produto de sua necessidade fisiológica lhe garantiria uma vida confortável e tranqüila. De repente, ninguém quer comprar mais bosta nenhuma, nem a sua: você vai deixar de fazer cocô? Não, claro que não: você continuaria a cagar e ainda por cima teria que encontrar outra forma de se sustentar. Tem gente que gosta de compor música e quer que os outros ouçam. Se distribuir CD é caro e a pirataria corre solta, eles acabam colocando a música de graça na internet. O mesmo vale para literatura, desenho animado e até para software (acredite: existe pervertido que se diverte escrevendo software).
Por vaidade: para que os outros vejam o que você fez e comentem. Para ter seus quinze minutos de fama, para que seu nome seja citado, etc.
Por que não é verdadeiramente grátis: O desenvolvedor pede doação, ou espera vender serviços de consultoria na hora que você não conseguir usar o programa que baixou de graça, ou vender a versão profissional que não tem as limitações da versão gratuita. O músico espera que, uma vez conhecendo, você vá ao show e cante junto.
Claro que nenhuma desses motivos seria válido se não houvesse um excedente de riqueza, isto é, se alem de você não conseguir vender seu cocô, você não conseguisse comprar comida, ou tivesse que trabalhar tanto para isso que não tivesse tempo nem para cagar.
O fato é que o produto do trabalho nos realiza, mas ironicamente cada vez menos temos domínio sobre ele. Não aramos a terra nem fazemos sapatos. Funcionários de grandes corporações, transformamos rosquinhas em slides de Power-point, e isso, obviamente não satisfaz.
Uma saída é compensar com consumo, outra é produzir algo que satisfaça, mesmo sem ser ostra.

