setembro 2010
D S T Q Q S S
« jul    
 1234
567891011
12131415161718
19202122232425
2627282930  

Dark City – Os carecas do outro mundo e a parábola da reencarnação

Poster do filme
Poster do filme

Não é bem um filme sobre o futuro do pretérito, mas é meio atemporal, talvez anos 70. A cidade parece Nova Iorque, só que flutua solta no espaço.

Ao longo do filme você vai descobrindo que é a velha história dos inimigos da terra, neste caso alienígenas carecas, mas poderiam ser robôs ou criaturas mágicas, que querem descobrir o que nos torna humanos. Vêm nesta resposta a salvação para a raça deles que está se extinguindo.

O mérito de Dark City não é o motivo batido, mas que por causa dele, os ETs montam uma experiência original – eles constroem uma cidade que flutua do espaço e a populam com gente que eles abduziram, sabe-se lá onde e quando.  Toda meia-noite eles param os relógios e põe todos os humanos pra dormir, aí eles tocam o maior salseiro: constroem e destroem prédios, apagam a memória de alguns e trocam-nos de lugar na sociedade, implantando uma nova memória.

Nunca amanhece, mas ninguém se dá conta, nem que não dá pra sair da cidade, até que nosso herói, John Murdock, acorda antes da hora, bem quando o médico (o Jack Bauer, vulgo Kiefer Sutherland) ia injetando-lhe bem no meio da testa as memórias de um assassino serial.

Os carecas intergalácticos ao invés de buscar uma cura para calvice, como acontece no Duplicity, ficam observando como uma mesma pessoa se comporta em diferentes situações e diferentes histórias pessoais.  Com isto, sei lá como, eles esperavam descobrir o que nos torna humanos. Os cabeça-de-ovo não têm memórias individuais e aparentemente não são lá muito emotivos.

Não posso deixar de fazer analogia com a crença na reencarnação, partilhada por hindus, espíritas e outras tribos. É mais ou menos a mesma coisa: você acorda no dia ou na vida seguinte, em uma situação totalmente diferente da anterior e não lembra de porcaria nenhuma. A pergunta que deve ser feita na maioria das situações, e também no caso da crença e do filme é: Pra que?

O filme até que explica, sem fazer muito sentido, que fazem as trocas pra descobrir o que nos faz humanos, expondo uma mesma pessoa a diferentes situações. Procuravam padrões, sei lá. Já no caso da crença, os motivos citados são justiça divina e evolução cármica.

Eu, por exemplo, fui um soldado japonês na primeira guerra mundial. Estuprei e matei várias chinesas, coreanas e etc. Pela explicação da justiça divina, os perrengues que passo nesta vida são uma punição, um acerto de contas cármico. Já, do ponto de vista da evolução, passo os perrengues para me tornar um ser humano melhor e não fazer mais as sacanagens que fiz no começo do século passado. Só tem um problema: não lembro de porcaria nenhuma da vida passada, logo que efeito tem a punição ou a lição?

O que somos nós senão nossa memória? Isto, imagino, era o que os pouca-telha marcianos queriam descobrir. Se possuirmos uma essência que transcende as particulares circunstâncias, apresentaremos uma tendência uniforme, por exemplo, uma pessoa generosa dividiria mais seus bens, quer seja rica ou seja pobre. Neste caso, progrediríamos ou regrediríamos na escala evolutiva de acordo com esta tendência, tornando o ciclo de reencarnações sem sentido, ou ao menos sem surpresa.

Por outro lado, se não possuirmos uma essência uniforme e formos modelando nosso caráter ao longo do tempo, só mudaríamos de lembrássemos da vida passada. A não ser que a punição viesse na mesma vida e, mesmo assim, o aprendizado duraria só até o fim desta. A não ser que você acredite que o sofrimento puro e simples ensina algo, mas mesmo neste caso, seria mais eficiente partir pra autoflagelação, ao invés deste trabalho todo de ficar reencarnando.

Claro que existe uma terceira hipótese, conhecida por “morreu, fedeu, acabou”, mas esta não dá muito assunto e leva irremediavelmente à conclusão que devemos deixar de coisa e cuidar da vida, senão chega a morte, o Belchior, ou coisa parecida.

Neste sentido cumpre informar que o herói aprende a controlar a cidade, derrota os carecas, constrói um oceano em volta da cidade, faz o sol nascer e todos os abduzidos vivem felizes para sempre, embora provavelmente continuem confusos.

Comments are closed.